A MULHER (DIE FRAU)
Dr. med. Georg Groddeck, Baden-Baden
“O eterno feminino nos eleva”. Todos vocês
conhecem as palavras finais do Fausto, e não
lhes causará estranheza que elas ressoem em meus ouvidos quando desejo falar-lhes sobre a questão da
mulher. Não sei se alguma mulher alguma vez
compreendeu a seriedade dessa única frase que torna o feminino responsável pelo agir dos seres
humanos. Não creio. Creio-o tão pouco que,
durante muito tempo, eu mesmo não compreendi por que a última palavra de Goethe era dirigida às
mulheres. Agora sei que uma verdade deve ser
dita mesmo quando permanece sem ser ouvida; que ela é como uma fonte que brota da terra sem
perguntar se algum sedento beberá dela. Sei
também que essa é a verdade mais profunda, e não hesito em repeti-la aqui: A mulher carrega a
responsabilidade pelo futuro. O eterno feminino nos eleva.
“Tudo o que é transitório é apenas um símbolo”. Não posso mais indicar-lhes o lugar onde experimentei isso;
talvez tenha sido Roma ou Berlim ou Londres, alguma grande cidade em todo caso, na qual eu caminhava
no meio de pessoas estranhas, entre pessoas rudes e apressadas, como elas seguem seu trabalho e, com raiva cerrada contra a
coerção da vida, correm pelas ruas. Nesse dia notei que todas essas pessoas, em um determinado
ponto, moderavam sua pressa e, quando então prosseguiam, mostravam em seus rostos uma expressão de
estranho recolhimento, como se tivessem visto algo sagrado. Quando me aproximei mais, vi, sob o arco
de uma via férrea elevada (deve ter sido então Berlim), encolhida num canto, uma mulher sentada que,
despreocupada com tudo ao redor, amamentava seu filho. Era uma mulher totalmente comum. Ninguém que
passasse por ela teria sequer olhado para ela; e, no entanto, essa única mulher detinha a corrente
da grande cidade e consagrava a cada um que a via aquele dia e aquela hora.
Esse acontecimento permaneceu comigo durante anos, e somente muito tempo depois compreendi que eu e
todos os que o viram havíamos contemplado: uma parábola, um símbolo da natureza divina. Isso nos havia elevado acima de nós mesmos.
Somente então aprendi também um pouco do ser das mulheres, que por tanto tempo me permanecera
estranho e que eu venerava sem saber por quê — a mulher que não posso apreender como apreendo o
homem, quando ele se apresenta diante de mim como uma personalidade forte, consciente de si e atuante — a mulher que jamais é uma
personalidade. Nunca. A mulher nunca é uma personalidade. Ela é uma imagem simbólica de todo o
acontecer, a natureza divina figurada
simbolicamente, algo inominavelmente sagrado que domina o coração de todo homem, como o olhar para o
espaço infinito do céu. Nenhuma personalidade, mas natureza divina, um ser do qual ecoa, nas
palavras:
Tudo o que é transitório
é apenas um símbolo.
E se tu não possuis isto:
Este morrer e tornar-se,
então és apenas um hóspede sombrio
sobre a bela terra.
…uma compreensão, procurar e lutar e combater até o fim da vida, para então finalmente, cansado e
envelhecido, ouvir da morte: “Sim, tu, ser humano, não és senão uma parte do mundo; também em ti
vive a natureza divina; também tu és eterno — não um eu, não um deus da terra, não uma
personalidade; mas és mais do que isso, pois és um símbolo; e tudo o que é transitório é apenas um símbolo”. Esse é o fim de uma longa vida, o objetivo
da vida: uma palavra tranquila e grave, uma compreensão profunda, seguida de renúncia
(Entsagung) e, ainda assim,
bem-aventurada. E ao nosso lado, nós que lutamos, vive um ser que não conhece esse combate, a quem
já foi colocado no berço aquilo que a nós apenas se apresenta como ideal: um ser totalmente
impregnado e animado pelas forças da natureza, sempre e incessantemente santificado como portador do
mais elevado símbolo, um símbolo de como a
vida se nutre da morte, um ser não fechado
em si mesmo, mas que tudo abrange em si — passado e futuro — um símbolo de tudo o que é transitório.
E então não deveríamos amar esse ser?
Não deveríamos amar a mulher?
Mas, naturalmente, esse amor apresenta-se de modo totalmente diverso no homem e na mulher; e por isso
também a lei moral do homem é diferente da da mulher. O conteúdo da vida feminina é o amor; e assim sua moral é uma
moral do amor, do relacionamento recíproco entre homem e mulher, uma moral do sentimento
(Gefühlsmoral). O conteúdo da vida
masculina é a ação; sua moral é intelectual, uma moral do entendimento (Verstandesmoral). A mulher ama a personalidade de um único
homem; ela ama esse homem determinado, o seu eu, a sua individualidade; ela não pode agir de outra
forma: pois, a partir do momento em que se entrega a ele, torna-se parte dele, uma criatura
dele. Ela lhe pertence; ela deve ser-lhe
fiel. É uma lei da natureza; e se ela não o for, peca contra sua própria essência, contra si
mesma. A fidelidade da mulher não é uma
questão de moral: ela é uma coerção fisiológica. Para o homem, porém, a fidelidade é um ato livre de sua
vontade; ele deve dominar a si mesmo para ser fiel; sua fidelidade é, na verdade, uma ação moral, um
testemunho de seu autocontrole e de sua força. Pois o homem não ama em sua mulher a personalidade (como
poderia, se nenhuma mulher jamais possuiu personalidade, nem jamais possuirá?). Em sua mulher ele ama a natureza divina;
ela é para ele o símbolo do Todo, certamente o mais sublime que ele conhece. Há reverência em seu amor, muito mais do
que no amor de sua mulher. Talvez ele próprio não o saiba; mas a mulher que ele possui é a mais alta
ideia de sua vida, a imagem do que foi e do que será, o símbolo da natureza divina. Ele não é, como
a mulher, forçado por seu amor a ser fiel. Apenas a ideia o constrange — a ideia à qual ele
sacrificou seu instinto, e que pode sacrificar novamente, se quiser.
Mas não é sempre, para o homem, um sinal de grandeza moral quando ele é fiel. Quanto mais
insignificante é o homem, quanto mais estreitamente ele pensa, tanto mais facilmente pode ser fiel;
sim, para muitos homens isso dificilmente exige esforço. Quanto maior, porém, é a personalidade do
homem, quanto mais alto aspiram seu espírito e seu ser, tanto mais difícil lhe é a fidelidade; pois,
assim como ele exige mais de si mesmo, exige também mais de sua mulher, esse símbolo transitório de
Deus e do mundo (Vergängliches Gleichnis von Gott und Welt). Somente sob três condições ele pode então permanecer fiel. Ou
ele reconheceu já em sua juventude, de modo correto e verdadeiro, que essa única mulher que escolheu
é para ele natureza divina — certamente o caso mais raro; pois quem, no tempo do cortejo, teria
discernimento suficiente para julgar como um sábio? O caso mais raro, certamente; poder-se-ia dizer:
um acaso feliz. A segunda possibilidade é que ele diga a si mesmo: “sim, eu me enganei; aquela que
escolhi é apenas um frágil vaso de Deus, e se eu procurasse encontraria talvez outra mulher que
significasse mais para mim. Mas por que deveria procurar? Essa primeira mulher que encontrei
ensinou-me a contemplar a natureza divina. Ela foi uma vez para mim o símbolo do mundo, e eu a fiz
minha, coloquei-a a meu serviço; em certo sentido ela é minha obra. Agora meus olhos estão abertos,
e para onde quer que eu olhe vejo o mundo eterno, o morrer e tornar-se. Vejo bem aqui uma mulher que
mostra mais perfeitamente a imagem de Deus; mas por que deveria torná-la minha? Aquilo que ela pode
ensinar-me, tomo dela sem tocá-la, reverente e cuidadoso, dominando com tranquila força meus
impulsos; pois isso eu posso fazer, se quiser”. Este é o segundo caso, o caso dos grandes homens, dos
verdadeiros homens — o caso de Goethe. Há
ainda uma terceira possibilidade de que um homem significativo, uma personalidade — que mesmo entre
homens são raras — possa ser fiel. Uma possibilidade extremamente triste, que me parece demasiado
frequente e pela qual essas personalidades acabam arruinando-se. São os transgressores contra o que
possuem de melhor, aqueles que, por vaidade obstinada ou por devoção religiosa fanática ao ideal uma
vez escolhido, fecham deliberadamente os olhos diante da natureza divina. E, porque já não conseguem
contemplar a natureza divina em sua própria mulher, também não querem mais olhar para nenhuma outra.
Eles temem o poder de seus próprios impulsos e sua própria fraqueza. Eles possuem moral feminina,
não masculina: moral de sentimento, mas não moral do intelecto. São os covardes, os homens que
mentem contra o espírito santo; não são absolutamente homens morais, mas homens maus, mentirosos
contra si mesmos. Essas três possibilidades existem para a fidelidade do homem que possui
personalidade. Os homens da massa, porém, são fiéis apenas porque é moral sê-lo, ou infiéis porque
têm oportunidade para isso — ambas desprezíveis nulidades. Mas aquele que possui personalidade e
força suficiente e, ainda assim, não mantém a fidelidade, deve responder por isso diante de si
mesmo; pois apenas ele pode julgar por que causa danos a si próprio. Somente ele tem o direito e o
dever de julgar a si mesmo, de absolver-se ou condenar-se; pois somente ele sabe o que o levou ao
adultério. Uma moral universal que
tornasse o homem escravo da fidelidade não existe e jamais deve existir. Isso significaria impor uma
lei à natureza, que — dada ao feminino —
prescreveria ao homem algo que paralisaria suas forças mais íntimas.
Vejam: aqui estou eu, no meio da questão da mulher, no meio da agitação insensata de nosso tempo, que
quer ensinar ao homem a moral das mulheres, que quer transformar o homem em mulher — no meio do
feminismo. Começa-se agora também a
compreender o que quis dizer quando afirmei que a questão da mulher (Frauenfrage) é a decisiva de nosso tempo. Se o movimento
feminino conseguir roubar do homem o último resto de sentimento de personalidade (e ele já é pequeno
o bastante), então estará terminado tudo o que há de grandioso e todo o futuro. Pois é sobre o sentimento de personalidade
do homem que repousam: seu sentimento de dever; sua força de ação; sua capacidade de sacrifício; sua
reverência pela ideia (Idee). E sem essa
reverência pela ideia — que, na verdade, e somente ela, criou todas as ações do homem (ou, em outras
palavras, do ser humano) e que constitui a verdadeira dignidade do homem — perde-se tudo o que foi
conquistado. Tudo o que é grande e belo na vida humana é obra do homem, é obra da personalidade no
homem. E isso sempre permanecerá assim; pois somente um ser humano que possui personalidade pode
agir de maneira criadora. E a mulher não possui personalidade.
Sei que essa afirmação encontrará oposição; contudo devo mantê-la. Ela não é, de modo algum, um
produto de minha fantasia, mas uma lei da natureza. Já o disse antes: a mulher está mais próxima da
natureza divina do que o homem; ou, para expressá-lo de outra maneira: ela está muito mais
estreitamente ligada à natureza; ela é um instrumento de natureza diferente para fins diferentes —
não um instrumento inferior, mas um instrumento que é utilizado para outras coisas e que, por isso, não possui
tantas possibilidades de movimento. É como acontece também com outras coisas. Um animal pode
mover-se livremente; é menos preso do que a árvore que está enraizada na terra. Mas por isso o
animal não é mais valioso que a árvore. Com um automóvel posso viajar por metade do mundo; mas por
isso ele não é mais valioso do que a máquina a vapor que permanece fixa na usina elétrica e fornece luz a centenas
de casas. A disputa sobre se o homem ou a mulher seriam mais altamente organizados é tola. Eles não
devem ser comparados entre si, pois servem a fins diferentes, e pode-se dizer tranquilamente: ambos
são perfeitos. O propósito da mulher,
porém — a vocação da maternidade — só pode ser alcançado se a mulher for limitada em sua liberdade
de movimento. Se ela realizasse externamente, de modo criador, aquilo que o homem realiza, então o
desenvolvimento da criança seria prejudicado. Entretanto, a própria natureza já colocou na mulher,
por meio de seu corpo, um limite que a restringe em toda parte. A mulher saudável e normal é, em
intervalos regulares, paralisada pela natureza, e com isso é estabelecido um limite para sua força, que o sexo
feminino não pode ultrapassar. Nos círculos feministas, hoje em dia, evita-se deliberadamente ouvir
essa advertência da natureza. Mas isso não ajudará. Em um determinado ponto o movimento feminino
terá de parar. Não se trata apenas de condições puramente corporais, embora estas, por si só, bastem
para diminuir a capacidade de desempenho da mulher. A mulher — mesmo a mais saudável — nesses
períodos encontra-se sempre, em maior ou menor grau, intelectualmente incapaz de julgamento. Seu ser
entra então, com inevitável necessidade, em completa perturbação, que lembra o tempo do
desenvolvimento da criança para a menina; ela se torna, por assim dizer, novamente uma menina, com
ideias próprias da juventude, e cai sob a pressão de uma força que a domina, em vez de ser dominada
por ela. A mulher depende, no mais alto grau, de sua condição feminina, e jamais, jamais conseguirá
superar isso. Por essa razão, ela também
nunca poderá realizar externamente aquilo que o homem realiza. Diante dessa parte da questão da
mulher, o homem permanece muito tranquilo. A mulher permanecerá diletante na criação. Ela está
destinada a outras coisas.
A natureza trabalhou de maneira admirável para preservar a mulher de se afastar de sua destinação,
para mantê-la afastada do campo de atividade do homem e tornar-lhe impossível qualquer atividade
criadora. Não bastou que ela tornasse a mulher fisicamente mais fraca; não bastou que lembrasse à
mulher, em intervalos regulares, que ela está a serviço da espécie; assim como também lhe deu, como
sinal visível dessa submissão à sexualidade, os seios, que a tornam incapaz de realizar todos os
trabalhos pesados. Não bastou isso: ela também formou o caráter e o ser da mulher de tal modo que
ela não é capaz de resolver problemas intelectuais. Ela quase não lhe concedeu o impulso de
personalidade do homem; e aquilo que lhe deu não foi o desejo de realizar algo, mas o desejo de ser
feliz e tornar feliz, esses dois impulsos motores da ação feminina. Por mais elevada que uma mulher possa estar, por mais que
possa alcançar, ela sempre vê as coisas sob o ponto de vista da felicidade. Esse impulso incessante
em direção à felicidade e ao fazer feliz ela também precisa ter; ele lhe foi dado com plena
intenção. Pois, caso contrário, ela seria incapaz de cumprir sua vocação materna; mais ainda, seria
incapaz de tornar-se mãe, já que apenas o desejo de felicidade leva a mulher a entregar-se ao homem
e a assumir os sofrimentos do parto. Assim, ela vê as coisas desde o início de forma equivocada ou,
pelo menos, unilateral. Mas ainda se acrescenta o fato de que a natureza prudente, sempre preocupada
em realizar seu objetivo principal de mil maneiras e em utilizar cada coisa dentro de limites
determinados para fins determinados, restringiu o ser da mulher aos limites da proximidade imediata,
tanto corporal quanto espiritualmente. Assim como o corpo feminino não é capaz de suportar os
esforços de movimentos perigosos, e como ao menos a advertência da natureza interrompe qualquer
movimento prolongado por meses — o que por si só já basta para impedir o perigo das descobertas —,
assim também o espírito feminino é impedido, pelo mesmo meio, de realizar grandes descobertas, pois
o trabalho intelectual contínuo é regularmente interrompido pelo acesso do período menstrual. À
mulher é negado vagar com seu espírito para longe, abranger milênios, trabalhar esquecida do mundo
em problemas profundos e difíceis. A natureza divina a prendeu ao solo: ao seu homem, ao seu filho,
à sua sexualidade. Quão seriamente a natureza leva a vocação da mulher ela mostra duas vezes com
clareza evidente: nos anos de desenvolvimento; no tempo da transição. Corpo e espírito da mulher são, em ambos os períodos,
completamente perturbados e colocados em tumulto. São processos para os quais não se encontram
paralelos na vida do homem. A natureza não quer a atividade criadora da mulher. Ela colocou limites
ao movimento feminino. E por isso o homem pode observar esse movimento com tranquilidade; sim, ele
pode e deve até apoiá-lo.
A natureza não quer a atividade da mulher. Ou não acontece que, a partir do momento em que a mulher
concebeu, qualquer outra atividade espiritual seja absorvida pela única certeza da criança que
cresce? A mulher mais inteligente, mais
instruída — sim, até mesmo um gênio, caso tal existisse entre as mulheres — é forçada pela concepção
a abandonar seu trabalho ou a realizá-lo de maneira imperfeita, seja ele estudo, arte ou qualquer
outra coisa. Ela é privada da livre disposição de suas forças espirituais e corporais; ela se torna,
por assim dizer, indiferente ou incapaz para tudo o que constitui o acontecer do mundo, na medida em
que não se refere ao seu filho. E agora o fato curioso: essa mulher torna-se, de repente, bela. E se
a beleza é a harmonia das qualidades com o fim, o cumprimento de um propósito — o que certamente é
uma definição correta — então esse tornar-se bela da mulher é a prova evidente de que o ser da
mulher reside na maternidade e que tudo o mais é apenas substituto ou ornamento. A mulher é o símbolo da natureza divina, o
símbolo do eternamente criador, que atua sem consciência e sem intenção, sem todas as fraquezas e
acréscimos humanos, e que molda o futuro.
Ela atua como o sol ou como a terra, muito além dos limites da compreensão humana; ela exerce uma
função que não pode ser medida por critérios humanos. E para lhe conceder essa elevação acima das
intrigas e dos julgamentos humanos, Deus lhe reduziu aquilo que é o sinal característico da condição
humana — a grandeza e também a pequenez da condição humana: a personalidade, com todas as suas
realizações e também suas limitações.
Pois a mulher não é uma personalidade. Como menina, isso será admitido sem maiores dificuldades. Na
mulher, porém, atua uma lei peculiar, que naturalmente não se quer reconhecer, mas que nem por isso
deixa de vigorar. O ser da mulher é transformado pelo contato com o homem. A mulher não recebe
apenas a criança; pela concepção toda a sua existência, corpo e espírito, é modificada e impregnada
pelo ser do homem: ela se torna semelhante ao homem; pode-se até dizer que ela se torna uma parte,
um membro do homem. Desde o primeiro
filho, a mulher já não é mais aquilo que era antes; ela é então uma mistura de menina e homem. Isso
é um fato cientificamente fundamentado e incontestável. Daí a semelhança exterior entre os cônjuges, daí o amor
inabalável da mulher por seu marido, que sobrevive a tudo. Daí também a validade incontestável da
frase: “A mulher seja submissa ao homem”.
Incontestável — ainda que violentamente contestada. Nada na relação de submissão será alterado pelo
movimento feminino. O homem serve ao mundo; a mulher, porém, serve ao homem. Servir e servir
novamente — essa é a sabedoria feminina desde o princípio até o fim. O homem é e permanece o senhor
da mulher; ela sempre lhe obedecerá: não pode agir de outro modo, exatamente como a mão obedece ao
cérebro. E assim como é sinal de grave
doença quando a mão deixa de obedecer à vontade, assim também é sinal de grave doença quando a
mulher se emancipa. Ela nada alcançará com
isso. Pois a chamada libertação da mulher não é prova de força, mas apenas prova da fraqueza do
homem, de sua degeneração ou, ao menos, de sua enfermidade. Mais cedo ou mais tarde a mulher cairá
novamente na dependência. E o único resultado desse movimento curioso — que se baseia na degeneração
do homem — será que o futuro senhor da mulher será menos digno do que aquele contra o qual ela luta
agora. E ela terá de obedecer a esse futuro senhor, embora o despreze, enquanto antes se submetia ao
homem com reverência.
Pois aqui reside a seriedade da questão da mulher: apenas na maneira como a mulher modela o futuro,
na forma como exerce seu ofício de mãe; não no direito de voto, nem na liberdade de estudar, nem na
disposição sobre o patrimônio. A mulher
carrega a responsabilidade pelo futuro — uma responsabilidade pesada, da qual deveria ser lembrada
diariamente e a cada hora: com suavidade e com severidade, incansavelmente. Vós sois responsáveis.
Não tendes direitos, mas tendes um dever
que é esmagadoramente pesado. Aquilo que em geral se chama questão da mulher é, na verdade, uma
brincadeira, um divertimento feminino com
o qual o homem se diverte e que saberá utilizar no momento oportuno. Pois, em si, não há nada contra
o fato de que a mulher participe do trabalho cotidiano. Por que suas forças deveriam permanecer
ociosas? Mas aquilo que ela trabalhará e realizará — na ciência, na arte, na vida profissional ou na
pesquisa — será sempre realizado a serviço do homem. Ele colherá os frutos de seu trabalho diligente e, com as
pedras que a mulher traz, erguerá a construção de sua arte, de suas religiões, de seu mundo. Mesmo
como mulher instruída e culta, ela será apenas, sob outra forma, aquilo que foi para o antigo
alemão, aquilo que sempre foi e deve ser: a serva (Magd) que executa o trabalho pesado. Se isso lhe agrada, ela — o símbolo da
natureza divina — pode fazê-lo. Pelo menos assim ela ajuda novamente, enquanto no século passado foi
apenas um obstáculo para a cultura. A questão da mulher, nesse sentido, é na verdade uma questão
masculina. E os homens deveriam promover o desenvolvimento da mulher tanto quanto possível, pois
assim aperfeiçoam seu melhor instrumento. Seu melhor instrumento. Pois a mulher não possui apenas
uma força de intuição muito mais elevada que a do homem; ela não apenas compreende muito mais
rapidamente uma situação, um valor, um pensamento — ela é sobretudo a grande inspiradora de tudo
aquilo que o homem cria. Ela — que é
natureza divina — é aquela que desencadeia todas as forças no homem e que, em certo sentido, é
novamente senhora e objetivo do homem. Existem objetivos para a mulher que nenhum homem pode
alcançar. Mas ela ainda não sabe disso. E, no entanto, ela deve aspirar a isso, se tudo não quiser
perecer. Pois a mulher carrega a responsabilidade pelo futuro. Para construir o presente — mas não
para criar — a mulher é incapaz. Falta-lhe a personalidade.
A mulher não é uma personalidade. De modo muito característico, um de meus pacientes expressou isso
quando, em um estado melancólico, manifestou o desejo de viver tempo suficiente para conhecer seu
neto. “E não lhe interessa que tipo de nora seu filho lhe trará?”, perguntou-se a ele. “Não”,
respondeu ele, “a nora é apenas um fenômeno passageiro”. Aqui está escondido um sentido profundo. Aqui nos encontramos
diante da medida de valor pela qual se decide a bondade ou a inferioridade da mulher. A partir dela
mesma não se pode reconhecer seu valor ou desvalor; pois ela é apenas um fenômeno passageiro. Seu
valor é demonstrado pelos filhos. O valor do homem é demonstrado por sua ação; pois ele é uma pessoa
que se afastou da natureza divina — e deve afastar-se dela; ele possui esse impulso. O valor da
mulher é mostrado por seu fruto, exatamente como a árvore é reconhecida por seus frutos. Pois ela está próxima da natureza divina,
tão próxima quanto a árvore: ela está voltada para o Todo, uma aparição passageira, não uma
personalidade, não um ser que cria valores ou transforma o mundo — ao menos não por sua própria
força. Mas ela possui instrumentos por
meio dos quais pode exercer influência, e está em seu poder utilizar esses instrumentos de uma
maneira ou de outra, formá-los desta ou daquela forma. Esses instrumentos são: o homem a quem ela
pertence e seus filhos, aos quais ela pertence. A mulher é, em sentido muito mais estrito que o
homem, uma força da natureza. Ela atua de modo semelhante ao sol, que cria por sua própria
existência, por sua luz e por sua vida; ela atua sem intenção. Ela é como a floresta, cujo encanto
imprime no ser humano uma determinada marca. Assim como a montanha molda o habitante das montanhas, e a
planície molda de modo diferente o habitante do vale, e o mar ainda outro tipo de homem, assim
também atua a mulher. Ela está próxima da natureza divina; daí provém sua força demoníaca, o súbito lampejo de luz espiritual que
nunca se encontra no homem, a natureza artística da mulher, a natureza da musa, o ser que constitui
um objetivo. Mas nisso reside também sua responsabilidade, seu dever. Ela não deve afastar-se da
natureza divina. Se o fizer, destruirá o futuro.
Como se coloca então a mulher diante dessa responsabilidade, como ela cumpre seu dever, como cuida do
futuro? Essa é a questão da mulher. Apenas isso. A questão da mulher é uma questão de dever, não de
direito. Na verdade, nenhum ser humano possui direitos; e a mulher menos que todos. Pois ela nada
fez pelo ser humano; ela nada pode fazer pelo ser humano: isso contraria a natureza. Ela não derrubou as florestas nem
exterminou os animais; ela não construiu casa alguma nem compôs canção alguma; ela permaneceu
completamente alheia à conquista do mundo pelo homem. Mas ela é a única que pode conquistar o homem para o mundo: e
esse é o seu dever. Não existe direito feminino; existe apenas um dever feminino.
E agora, mais uma vez: como se coloca a mulher diante desse dever? Até agora, de modo algum; pois ela
ainda nem sequer o conhece. E é de se perguntar se ela compreenderá esse dever quando lhe for
mostrado. Pois a mulher é um ser estranho: facilmente ferido e dificilmente reconciliado. Ela é como a água, em cujo espelho puro a imagem se mostra claramente enquanto
a água permanece tranquila. Mas se um golpe atinge a profundidade da água ou a alma da mulher, então
a imagem se distorce nas ondas ou no ódio e na paixão. Que o espelho permaneça claro! Pois tenho
coisas duras a dizer.
Primeiramente, portanto, o registro de culpa dos homens; pois, para dizê-lo desde logo, não foram as
mulheres que criaram as condições insustentáveis atrás das quais espreita a ruína das nações, mas os homens. Contudo, tirar-nos dessas
condições não podem novamente os homens, mas apenas as mulheres. Trata-se da decisão sobre se de
fato entraremos no caminho da natureza divina, e essa decisão só pode ser tomada pela mulher, que
está mais próxima da essência do mundo, que traz em si o morrer e tornar-se.
Todo ser humano sabe — e quem ainda não sabe logo o aprenderá — que o homem oprimiu o sexo feminino
durante séculos, que o tratou como
brinquedo e como animal de trabalho, e ao mesmo tempo o privou deliberadamente de toda possibilidade
de acompanhar o ritmo das etapas do desenvolvimento humano. À mulher foi afastado todo saber e todo
pensamento; ela foi artificialmente educada para ser uma boneca e nela se cultivou a “graciosa
feminilidade”, uma ingênua frivolidade de colegial que ainda hoje muitos homens consideram a
qualidade desejável numa mulher. Isso
agora está mudando, não por obra dos homens — pois como homens eles já não valem grande coisa,
servindo apenas como profissionais — mas
pela força das próprias mulheres. Sem dúvida uma realização significativa, um esforço que terá a
aprovação de todo homem. Mas esse não é o ponto central da questão; e com ginásios para moças,
campanhas pelo direito de voto e associações para a elevação moral dos homens (pois é nisso que tudo
acaba resultando) não se chegará de modo algum ao núcleo do problema. Aquilo que falta às mulheres é
a consciência do dever. Ela lhes foi retirada pelos homens, lentamente e de maneira profunda; e
agora — é preciso dizê-lo — agora as mulheres se tornaram esquecidas de seus deveres.
Eu já lhes disse que o sentimento de personalidade do ser humano, sua autoconsciência, diminuiu: seu orgulho de
sustentar-se por si mesmo e de realizar grandes coisas a partir de si próprio. Ao mesmo tempo, o
conhecimento da natureza divina ainda não se tornou patrimônio comum; e mesmo os poucos que dela
suspeitam ainda não conseguiram, nem sequer tentaram, colocar sua vida em harmonia com esse conhecimento. A harmonia do ser
humano com o universo ainda não foi alcançada. Em vez disso, construiu-se o conceito de
humanidade, ao qual se integra o indivíduo
como membro servidor, perante o qual o indivíduo possui obrigações. Essa humanidade tomou, de certo
modo, o lugar do Deus pessoal; promovê-la, ajudá-la, tornou-se a tarefa mais elevada. E não se pode
negar que, em certo sentido, a religião do amor ao próximo tornou-se agora realidade. Partindo da divindade desse conceito
de humanidade, atribuíram-se a esse novo deus direitos — os famosos direitos humanos, que recebem
ora um nome, ora outro: direito ao trabalho, direito ao livre desenvolvimento, direito à alimentação
e assim por diante. Todas as nossas instituições sociais estão construídas sobre isso, e todo o
nosso pensamento e ação modernos estão impregnados pela lei do amor ao próximo, pela devoção ao novo
deus humanidade. De maneira curiosa — e em uma contradição que revela claramente a confusão dos
conceitos, mas que é explicável pela própria natureza humana — surgiu, justamente no tempo em que o
sentimento de personalidade se enfraquecia e as personalidades definhavam, um discurso sobre a
personalidade livre, sobre o viver-se
plenamente, sobre o direito à personalidade. E nesse discurso se acredita. Também a mulher acredita
nisso; sim, sobretudo a ela se inculcou essa ideia, e ela então, com sua imaginação viva, passou a
fantasiar a respeito. Direito à personalidade: com isso ela nada podia fazer. Pois ela não possui
personalidade, é uma aparição passageira, uma parte do homem e uma mãe, um símbolo. Para a mulher, a expressão personalidade é
uma frase incompreensível. Para aproximá-la de sua compreensão foi preciso acrescentar algo. Esse
algo foi a palavra felicidade. De modo que agora se diz: o direito à felicidade da personalidade. Naturalmente isso não foi
formulado expressamente assim; mas interiormente ocorreu dessa maneira, pois a mulher não pode
imaginar outra coisa sob a ideia de personalidade senão a felicidade e o tornar feliz. Viver-se
plenamente, ser uma personalidade, é para ela uma expressão que desperta ideias estranhas. O
viver-se plenamente da mulher já foi uma moda, e ainda o é em certos círculos, e todos sabem pela
experiência que frutos essa visão de vida produz. As mulheres libertinas mostram apenas o
excesso. Na verdade, nenhuma mulher está
mais livre da ideia de que possui um direito à personalidade. Isso quer dizer: um direito à
felicidade. E aqui começa aquilo que eu chamo de esquecimento do dever, a falta de consciência moral da mulher.
Tornar-se feliz e tornar feliz: esses são os impulsos fundamentais da mulher. Eles precisam existir; os fins que a
natureza persegue com esse dom dado à mulher são claramente reconhecíveis. Se alguma lei natural foi
demonstrada, é a da conservação da espécie: a natureza emprega todas as forças para assegurar a
reprodução. O meio, entre os seres humanos, é a fome de felicidade da mulher. Ela a impele repetidamente para os braços do homem;
e, por mais vezes que a ilusão da felicidade seja destruída (pois é uma ilusão), tantas vezes ela
desperta novamente. Nenhuma criança mais nasceria se esse insaciável desejo de felicidade não
estivesse plantado no mais profundo do ser da mulher. Esse impulso natural não deve ser ainda
artificialmente alimentado; se não se quiser que ele sufoque e oprima todas as outras inclinações, é
preciso contê-lo e, quando necessário, podá-lo. Nenhum dano pode ser causado com isso. A força desse impulso é
tão grande que ele supera até os maiores obstáculos. Até tempos muito recentes, esse desejo de
felicidade, esse impulso natural da mulher, foi mantido dentro de limites adequados pela posição
peculiar da mulher e por sua educação. Mas desde que o homem perdeu sua autoconfiança, desde que já
não é mais uma personalidade e também não vive em harmonia com o universo, desde que não ousa mais
manter a mulher em submissão e obediência, porque imagina que ela possui direitos humanos, desde que
já não consegue dominar a mulher, porque se tornou fraco — pois é assim que as coisas se apresentam
agora — desde então o impulso de felicidade da mulher cresceu exuberantemente e sufocou sua
consciência natural, ou pelo menos a entorpeceu — mas temo que a tenha sufocado.
O mais importante na vida da mulher é o casamento. Não apenas em sua própria concepção é isso o mais
importante; também para a natureza atuante é o mais importante, pois o casamento é o meio para o fim
que a natureza persegue. Ao pensar nisso, a mulher pergunta primeiro: serei feliz com esse homem, ou
poderei ao menos torná-lo feliz se eu mesma tiver de renunciar à felicidade? Assim pensa a jovem
durante o cortejo; assim pensa a mãe
quando deve entregar sua filha. Mas isso é simplesmente um crime. A felicidade é o objetivo do
casamento? Certamente que não. Isso seria pensar muito baixo desse sacramento. Vocês ouvem que eu o chamo sacramento,
embora eu seja protestante no sentido mais rigoroso da palavra. Durante milênios não se pensou assim
sobre o casamento; e o verdadeiro homem ainda hoje não pensa tão baixo. E menos ainda a natureza.
Que importa à natureza a felicidade da mulher — ou do ser humano em geral? Para a natureza, a pedra ou o rio estão tão
próximos quanto o ser humano. Ambos são apenas instrumentos; e também a felicidade é apenas um meio para seu propósito
inescrutável. Para aquele que conhece a natureza divina, o casamento tem apenas um sentido: o
sentido que Nietzsche coloca em suas palavras sobre o “jardim do casamento”, isto é, que a criança cresça bem e
ultrapasse os pais. Isso é natureza divina. Mas o que acontece se a mulher — esse símbolo da
natureza divina, essa mãe cujo nome se pronuncia apenas com reverência, esse modelo para a mãe
terra, para a mãe sol, para a mãe natureza, para a mãe de Deus — se essa mãe busca a felicidade em
vez de cumprir seu ofício? Se ela se entrega ao homem que lhe agrada, pouco importando se ele é
doente, pouco importando se pertence à sua raça ou não, se é um alemão do norte ou do sul, um conde
ou um pastor, um italiano ou um germânico, desde que ela o ame?
O amor de uma jovem! O homem experiente ri quando ouve isso. Então o amor de uma jovem, esse impulso
cego e irrefletido, tornou-se juiz do futuro! Do impulso de uma pequena tola depende o destino do
mundo! Direito ao amor? Toda mulher pode seguir seu amor? Só se pode casar por amor, caso contrário
a mulher é humilhada, o casamento torna-se prostituição? Verdadeiramente, sinto repugnância quando
ouço essas frases vazias, essas frases perversas. O direito de casar por amor pertence apenas aos
maiores entre os seres humanos, aos poucos
que conhecem a natureza divina e aos quais realmente aparece uma mulher que seja para eles natureza
divina; para todos os outros esse direito é uma injustiça. Sobretudo, porém, esse direito pertence
apenas ao homem; pois apenas o homem pode amar de modo impessoal, pode venerar na mulher a natureza divina; a mulher, porém,
ama a personalidade. E esse amor é muito humano. Acreditem em mim: aqui vocês têm diante de si a
questão da mulher, aqui está o ofício de juíza da mulher, a responsabilidade da mulher.
O amor de uma jovem! Não se deve deixar enganar por tais ideias. Um amor assim simplesmente não
existe. É apenas uma mentira. O amor da mulher começa somente com o casamento; apenas quando ela se
torna propriedade do homem uma mulher pode amar: até então trata-se de um impulso tão baixo quanto a
fome ou a sede. Mas quando ela se torna propriedade do homem, então deve amá-lo; não pode agir de
outro modo. O amor surge então por si mesmo. A natureza não é uma artesã inepta. Ela realizou bem
seu trabalho e força o amor da mulher através do casamento; pois, pela concepção, a mulher se torna
uma parte do homem: ela passa então a viver nele, porque vive a si mesma nele. Ela tornou-se ele,
seu corpo torna-se o corpo dele, seu espírito torna-se o espírito dele. Esse é o sentido da frase:
“Vós deveis ser uma só carne e um só sangue”. Apenas isso.
A mulher carrega a responsabilidade pelo futuro. A culpa de que a mais nobre raça do mundo, a única
verdadeiramente nobre, esteja miseravelmente perecendo, recai sobre as mulheres. Essa é minha
resposta à questão da mulher. Ou, se preferirem em outra forma: a mulher moderna ainda não é capaz
de governar a si mesma, mas deixa-se governar por seu impulso de felicidade. Ela não possui
consciência do dever. E essa falta de consciência do dever explica também outro fato que
frequentemente é apresentado como argumento importante na discussão da questão da mulher: o grande
número de mulheres solteiras. A mulher tem o dever de casar: deve tentar, por todos os meios,
conquistar um homem, por todos os meios que a astúcia feminina já inventou e imaginou; pois somente
como companheira do homem, como mãe, ela cumpre sua primeira tarefa natural. Essa é a primeira coisa
que se deve exigir de uma jovem: que ela, com olhos claros e lúcidos, não cegos pela paixão, procure
aquele que será seu senhor e que pode fazê-la tornar-se plenamente humana. Esse deveria ser o
objetivo da educação feminina. Aquela
que se considera elevada demais para caminhar sozinha pelo mundo deve ao menos saber que priva esse
mundo de seu futuro, que é culpada se uma geração inteira, que repousa nela, não chega a florescer,
que ela sufoca a vida. E se ainda assim tiver a ousadia de permanecer solteira por causa de sua
própria felicidade (há também outras razões para permanecer solteira que reconheço e respeito
plenamente); mas se o fizer por causa de sua felicidade, então que o faça. Pois uma jovem assim não
merece ter filhos. Ela é indigna de
governar o futuro.
Esse é o desejo de felicidade da mulher, o grande perigo que corrompe a raça, que misturou sangue
eslavo e latino ao nosso e que agora entrega o sangue europeu até mesmo a japoneses, chineses e
negros, na Índia, na América e na África. Esse perigo quase não deixa esperança para o futuro.
O segundo impulso fundamental do ser feminino — ajudar tudo o que é indefeso, sustentar tudo o que é
fraco e elevá-lo, torná-lo feliz — duplica o perigo. Também esse impulso está profundamente plantado
no ser da mulher e deve agir nela; pois nele se enraíza o amor materno, esse maior de todos os
milagres, que sozinho torna possível a continuidade da humanidade. Também esse impulso cresceu de
forma excessiva; também nele se mostra que a mulher não conhece seu dever. Pode-se perdoar quando
uma mãe cria com todo cuidado seu filho fraco; pode-se até compreender quando ela mantém vivo até
mesmo o filho idiota. Mas quando ela se orgulha, em tola ostentação, de sua atividade caritativa
entre doentes e inválidos, entre bêbados e epilépticos, quando apoia e conduz a loucura de nosso
tempo, que procura manter vivo tudo o que é fraco, participando de tudo aquilo que prejudica o
futuro da raça, isso não é menos condenável do que sua negligência na escolha do casamento. Também
nisso ela mostra que não consegue dominar a si mesma, que é dominada por seus impulsos, que
necessita de um senhor que a mantenha firmemente na natureza divina.
O que deve então fazer a mulher? Também para isso existe uma resposta. Ela deve educar o senhor ao
qual possa servir com honra e reverência. Infelizmente essa resposta está em contradição com o
espírito do tempo. A geração atual está distante da cultura e da harmonia com a natureza divina. Do
homem já nem se pode falar. Eu já lhes disse: ele tornou-se um escravo profissional e, em três
quartos de sua natureza, tornou-se feminino. Todos os ideais de nossa época são ideais femininos,
ideais de felicidade e de paz na terra,
certamente não objetivos que exercitem a força do homem. Assim ele perdeu também seu domínio. E a
mulher? Também ela, como buscadora de felicidade, não é capaz de conduzir à natureza divina. Mas ela
possui em suas mãos o meio pelo qual pode moldar o futuro: a educação das crianças. Lentamente e de
maneira quase imperceptível a influência do pai diminuiu; e, para onde quer que se olhe, é sempre a
mãe quem educa.
Somente o homem pode transformar o mundo; somente ele possui a força da personalidade para realizar
algo duradouro; somente ele é criador da cultura. Assim, a primeira preocupação deve ser a educação
do menino para tornar-se homem. Isso quer dizer: para a luta, para o perigo, para a ação. O menino não pertence ao quarto de
crianças: ele pertence à rua, à vida humana, e isso desde a mais tenra infância. Ele tampouco
pertence à escola, mas à natureza, ao contato com as forças elementares, à amizade e à hostilidade
com seus irmãos na árvore e no rochedo, no mar e no sol, no animal e no céu. Que enfim se o liberte dessa estúpida
acumulação de coisas para decorar; que se lhe deem tarefas de ação e de criação; que se o torne duro
contra si mesmo e contra o mundo; que se lhe ensine a amar o perigo; que se lhe ensine que ele é um jogo, que ele é o mais alto
na vida. Que se lhe ensine a obedecer, para que possa mandar; pois ele é o senhor nato entre os
seres humanos. Que se lhe ensine o domínio de si mesmo. A grande renúncia de que ele é capaz não se
deve reprimir; deve-se deixar livre curso aos seus impulsos e humores; mas não se deve ajudá-lo
quando parecer estar afundando. Médico, ajuda-te a ti mesmo: esse é o lema da vida masculina, o lema da educação. Que se
arranque impiedosamente toda sentimentalidade; o sentimento saudável permanecerá de todo modo. Que
se lhe ensine desde a infância a reverência diante da natureza divina e diante de seu símbolo, a
mulher; que se lhe ensine que ele não pode tomar cegamente uma mulher ali onde o desejo o atraia,
que ele é fundador de uma linhagem, que deve ser forte de corpo e de alma para poder gerar filhos,
que seu primeiro e mais sagrado dever é contrair um casamento, não no céu, mas sobre a terra, com
plena consciência da responsabilidade, mas que deve antes renunciar a todo amor se não for forte de
corpo e de alma. Limitar o número de filhos. Isso é muito bom. Para que tantos seres humanos? Mas a
criança que nascer deve ser boa. O
menino deve ser solto das rédeas da mãe. A mãe deve educá-lo para tornar-se o futuro senhor da
mulher. Deve tornar-lhe desprezíveis todos os ideais femininos. Deve ensiná-lo a desprezar a felicidade. Deve ensiná-lo a
compreender que ele tem deveres e não direitos, que é um instrumento na mão da natureza divina. Deve
ensiná-lo a ver o todo no fragmento, a refrear seu egoísmo, a ligá-lo à terra, a mostrar-lhe: tu não
és mais do que a mulher, mas és diferente. Não és mais do que a árvore, mas és diferente. Não és
mais nobre do que qualquer ser ao teu lado, mas és diferente. Teu perigo não é maior que o do
pássaro no ar, e tua vida não vale mais. Despreza-a. Não busques a felicidade. Tu não és mulher. Que
a felicidade te permaneça distante. Relaciona-te com a natureza divina. Aprende a compreendê-la.
Respeita em ti mesmo a natureza divina. Tem reverência diante da mulher; ela também é natureza
divina. Tem reverência diante de cada coisa que existe e diante do todo; aprende a admirar e a
maravilhar-te; e, sobretudo, aprende a agir. Tu carregas a responsabilidade por tudo o que acontece.
Mas onde estão agora as mães que enviam o filho para o perigo? Que se alegram com sua audácia e com
seu desprezo pela felicidade? Onde está o movimento feminino que quebra o poder das escolas? Onde
estão as mulheres que ensinam ao menino a natureza divina? Que lhe mostram: tu és um ser humano, não
um ser imortal com uma alma imortal? De ti não restará mais do que da folha que o vento arranca do
galho; de ti nada restará além de teus atos. Tu não sofres mais, quando és ferido no corpo e na
alma, do que o rio no qual lanças uma pedra; teu sofrimento nada é, tuas feridas nada são, teus
perigos nada são. Toda criatura tem o mesmo sofrimento que tu; cada uma carrega silenciosamente seu
destino e cumpre silenciosamente sua obra; e somente tu, um homem, quererias chorar? Ouve o canto
que a árvore entoa quando a tempestade a envolve! Essa é a alegria do perigo. Ouve o ímpeto ruidoso
do riacho que luta com o rochedo! Essa é a alegria do perigo. Jubila diante da vida, da luta, da
alegria, da ruína! Onde está a mãe que
lhe mostra, no símbolo da natureza, a hierarquia do mundo, que lhe diz: não importa tua habilidade,
mas que deves ser capaz, ainda que por isso pereças? A árvore não é perguntada se seus galhos se
partem sob os frutos; ela deve carregá-los. Faze tu o mesmo. Aprende a obedecer. Toda criatura deve
obedecer; toda a natureza obedece a leis eternas. Ajusta-te ao teu destino e vive-o. Em toda parte
há o alto e o baixo; examina-te para
saber se foste chamado a ser senhor; examina-te sem cessar, e se não tens a força, então sê servo de
boa vontade, com alegria e sem inveja.
Assim deveria ser a educação dos meninos. A mãe deveria dominar em si o amor simiesco, deveria reconhecer que lhe foi confiado
um valor eterno. Deveria dizer a si mesma, se o menino se acidenta: bem, ele me era querido; mas
melhor que tenha perecido com honra do que viva covardemente. A natureza tem milhões de germes em
seu seio. A criança morta é enterrada, mas ali adiante nasce outra, e ali outra; e talvez ela valha
mais do que a tua. A árvore dá seus frutos, seus filhos; a relva o faz e o rochedo também; todos
sofrem como tu, mas ainda assim o fazem. Esse é teu destino: ama teu destino, submete-te a ele. Não
te acontece mais dor do que a todos os outros, e tu não és um todo: és apenas uma parte no Todo, um
servidor da natureza divina. Reconhece o morrer e o tornar-se, e então tua dor será suportável.
Reconhece isso, e tem reverência diante da eternidade.
São exigências duras; eu o sei. Mas são necessárias; são necessárias, embora contradigam tudo aquilo
que hoje o ser humano chama de elevado e sagrado, tudo aquilo que a mulher sente e que tem por seu
melhor, aquilo que mostra a suas filhas e lhes ensina como exemplar; pois também as filhas devem ser
educadas de outra maneira, de maneira inteiramente diversa. E elas são fáceis de educar; pois nelas
reside a natureza divina. Basta um único impulso, e a moça encontrará aquilo que nela está: a força
criadora do futuro. Mas, naturalmente, esse impulso precisa ser dado. Ela deve saber para que está
no mundo. Deve aprender que nasceu para ser mãe. Deve aprender que o discurso sobre o único e singular amor é
apenas discurso, e não verdade. Deve aprender que a dor e o prazer do amor não têm absolutamente
nada de extraordinário, nada que deva ser cultivado como uma raridade, mas que são algo cotidiano.
Deve aprender que seus sentimentos não são sagrados em si mesmos, embora sejam declarados sagrados —
pois o que não se diz dos delicados sentimentos de uma jovem? —, mas que são impulsos da natureza,
exatamente os mesmos impulsos que fazem a flor desabrochar, o pássaro cantar e a rocha desgastar-se,
que não é privilégio do ser humano amar, e que ele, o mais magnífico de todos, não constitui exceção
alguma, que o amor não é em absoluto algo sagrado, mas um dever, e que a mulher nasceu para
suportar, carregar e servir, e para nada mais, que a felicidade é apenas um chamariz da natureza, e
que esse mesmo fogo-fátuo da felicidade tornará sempre a reaparecer diante de seus olhos enquanto
ela for mulher, do mesmo modo como a árvore, todos os anos, enfeita seu fogo-fátuo da
felicidade. Mas onde está a mãe que, no
meio dos tolos sonhos de moça de sua filha, lhe mostra a borboleta e lhe diz: vês, isso és tu. Isso
é o morrer e tornar-se. Poucos dias, e a colorida borboleta de verão terá morrido, morrido de seu
amor, morrido para que algo venha a ser; e assim és tu. Tu nada vales. Só o fruto te torna valiosa.
Tu és bela como a flor na árvore; mas de ti nada permanece além do fruto. Tu mesma pereces. Tem
reverência diante de tua vocação. Não olhes para tua felicidade, mas para teu dever. Olha para o
interior da natureza: em toda parte encontrarás o mesmo que em ti, o mesmo amor, a mesma felicidade,
a mesma dor. São apenas meios para um fim, não são sentimentos sagrados, são instrumentos da
natureza divina, assim como tu mesma és um instrumento. Tem reverência diante de teu fim, e não te
entregues cegamente ao teu amor. Teu amor não é amor; é anseio, mas não amar. Só se pode amar aquilo
que se possui; o que não se tem, deseja-se. E essa saudade que chamas amor é algo que compartilhas
com todos os seres de tua idade primaveril. Não é um sentimento pessoal, mas geral, que não se
dirige a esse homem, que tu nem conheces, mas que possuis para que chegues ao florescimento,
exatamente como o lilás e a roseira o possuem. Tu és uma flor; o fruto, porém, é o que te enobrece.
Não procures a felicidade, mas compreende que és um símbolo do mundo, uma imagem figurativa de tudo
o que é passageiro, um membro próximo ao coração da natureza divina, um ser que morre e se torna.
Um símbolo de Deus: isso é a mulher. Nela o homem ama o passado e o futuro; dela flui para ele a
força criadora, a vontade, o esforço que
aspira e se eleva. A mulher é, na verdade, a fonte do mais belo que existe na terra, um ser cujo
louvor jamais cessará, um símbolo que nos eleva, na verdade uma mãe de Deus.
Nota do editor da publicação original: Diante do movimento sufragista feminino
que agora também se manifesta em Berlim, considerei meu dever pedir a alguém que, como médico
especialista em doenças nervosas e diretor de um sanatório, aprendeu a conhecer profundamente a
mulher moderna por meio de sua experiência, que me permitisse publicar um capítulo de seu livro
“Rumo à natureza divina” (Hin zur Gottnatur, editora S. Hirzel, Leipzig). Essa autorização foi concedida tanto
pelo autor quanto pela editora. Peço que esta conferência seja discutida, tanto quanto possível,
em todos os círculos familiares, sem
preconceito, e que seja considerada apenas como os pensamentos de um homem que não odeia, mas
que ama e reverencia aquilo que é sagrado.
Wilhelm Schwaner.